#145: O que esperar da logística brasileira em 2026?

Se 2025 foi o ano da consolidação tecnológica e da maturidade operacional, 2026 chega com um desafio diferente: transformar a logística em um setor mais estratégico, integrado e resiliente diante de pressões econômicas, climáticas, regulatórias e competitivas.

Mais do que evoluir sistemas ou ajustar processos, o próximo ano deve exigir que as empresas repensem seus modelos de negócio, as relações na cadeia logística e a forma como risco, custo e valor são percebidos. Afinal, será que logística continuará sendo “custo operacional” ou 2026 marca o momento em que ela passa a ser ativo estratégico do negócio?

Para tentar responder essas questões, trouxemos cinco tendências que serão cruciais para as operações logísticas em 2026.

Tendência #1: a volta do protagonismo do transporte intermodal e da cabotagem

Enquanto 2025 olhou muito para eficiência local e redes curtas, 2026 traz um movimento complementar: o fortalecimento do transporte intermodal, especialmente na conexão entre rodovias, ferrovias e cabotagem. Não se trata apenas de substituir caminhões, mas de usar melhor cada modal no trecho certo.

Na prática, isso pode significar:

  • Maior uso de ferrovias para longos trechos;
  • Crescimento do transporte costeiro para cargas de grande volume;
  • Criação de corredores logísticos mais previsíveis;
  • Redução de risco em momentos de crise rodoviária.

Historicamente, já vimos esse movimento surgir em ciclos, como nas discussões sobre integração ferroviária nos anos 2000 e na retomada da cabotagem após reportagens e debates regulatórios de 2019 em diante. A diferença de 2026? Agora o fator custo + risco + impacto ambiental coloca o intermodalismo no centro do debate estratégico, e não apenas como alternativa teórica.

Tendência #2: compliance, governança e profissionalização dos contratos

2026 tende a ser o ano da maturidade jurídica e contratual da logística. Pressões regulatórias, fiscalizações eletrônicas, maior integração de dados e exigências de governança farão com que temas antes “operacionais” como rastreabilidade documental ponta a ponta, contratos de frete mais estruturados e auditáveis, padronização de indicadores entre embarcador e transportador, maior rigor em compliance fiscal e trabalhista e redução de informalidade no setor ganhem peso estratégico.

No dia a dia, isso pode parecer burocracia, mas pense no seguinte exemplo: é como organizar um estoque sem etiquetar caixas. A operação até funciona… até que algo dá errado (lembra do que aconteceu no inventário do Grupo Mateus?)

Da mesma forma, operações que não estruturarem governança podem enfrentar glosas, passivos trabalhistas, bloqueios fiscais e restrições comerciais. Por isso, em muitas empresas, os contratos deixam de ser “um anexo de tabela de frete” e passam a ser instrumento de gestão de risco e continuidade operacional.

Tendência #3: a logística mais preparada para eventos climáticos e interrupções

Outra tendência que ganha força em 2026 é a gestão de risco climático e de interrupções operacionais. Nos últimos anos, notícias e reportagens evidenciaram impactos de enchentes, deslizamentos, secas em hidrovias e bloqueios rodoviários em diversas regiões do país, e a resposta do setor tende a mudar.

Ao invés de apenas reagir, as operações passarão a planejar rotas alternativas por cenário, revisar a localização de CDs sob risco ambiental, criar protocolos de contingência por região e monitorar clima como variável operacional real. Com isso, 2026 tende a marcar o início de uma mentalidade de logística resiliente, em vez de logística apenas eficiente.

Tendência #4: cibersegurança

Com cadeias cada vez mais conectadas, integrações de sistema, portais de transporte, EDI, TMS, WMS e automações, a logística passou a ser também um alvo potencial de ataques cibernéticos.

Isso não significa cenários hollywoodianos, mas situações muito próximas da realidade, como o bloqueio de sistemas de emissão de notas fiscais, indisponibilidade de tracking, sequestro de base de dados operacionais e paralisação de integração entre parceiros. É como perder a chave do caminhão, só que a chave agora é o sistema.

Assim como a segurança física da carga sempre foi prioridade, a segurança digital passa a ser parte da operação. Por isso, 2026 deve ver avanços em:

  • Políticas de segurança da informação na cadeia logística;
  • Controle de acessos entre embarcadores e transportadoras;
  • Revisão de dependência tecnológica crítica;
  • Planos de contingência mais robustos.

Tendência #5: a formação de novos perfis profissionais e maior integração entre áreas

Enquanto 2025 reforçou a valorização de competências analíticas, 2026 tende a ampliar o movimento, com a evolução de novos perfis híbridos na logística.

Perfis que conectam setores como operação + finanças, logística + tecnologia, transporte + jurídico + risco ou planejamento + relacionamento com o cliente ganham destaque nessa nova etapa da a logística.

No dia a dia, isso aparece quando o profissional deixa de olhar apenas “se a rota saiu” e passa a entender o impacto financeiro das decisões, o risco contratual ao qual está exposto sob certas situações e o efeito no SLA do cliente final.

A logística brasileira passou por uma trajetória semelhante à da qualidade industrial nos anos 1990, onde primeiro veio a mudança operacional para depois ser implementada uma mudança estratégica, e 2026 reforça essa virada cultural com a logística deixando de ser um departamento que executa e passando a ser uma área que influencia decisão de negócio.

E o que tudo isso significa para o dia a dia da operação?

Podemos esperar que 2026 nos apresente novas formas de pensar a logística, com menos improviso e mais governança, menos dependência de um único modal, menos reação a crises e mais análise preditiva e menos visão departamental e mais integração estratégica. A logística brasileira entra em uma fase em que maturidade organizacional passa a pesar tanto quanto produtividade operacional.

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