#151: Acabou a festa e sobrou estoque. E agora?

Para muita gente, o ano só começa de fato após o carnaval, mas, na logística, o relógio nunca parou. Enquanto o país recupera o fôlego, o profissional de operações se depara com um cenário clássico: gôndolas vazias de um lado, excessos de produtos sazonais de outro e uma enxurrada de devoluções batendo à porta. É aquele momento em que a euforia das vendas de verão e carnaval dá lugar ao choque de realidade operacional, onde cada item parado ou devolvido começa a corroer a margem de lucro que foi tão difícil de conquistar.

A ressaca da demanda e o desafio do estoque parado

O grande erro de muitas empresas é tratar o pós-carnaval apenas como um período de calmaria ou de limpeza. Na verdade, estamos diante de um complexo quebra-cabeça de reposicionamento: se antes o foco era o “push”, ou seja, empurrar o produto para o ponto de venda o mais rápido possível, agora o jogo vira para a gestão de sobras. Um estoque parado após um grande pico de consumo é, na prática, dinheiro perdendo valor a cada dia.

Historicamente, as empresas que não fazem uma leitura rápida do que sobrou acabam carregando custos de armazenagem desnecessários por meses, comprometendo o fluxo de caixa para as próximas grandes datas, como o dia das mães. Por isso, o desafio agora é entender o que foi erro de previsão e o que foi mudança de comportamento do consumidor, transformando esses dados em inteligência para o restante do semestre. Enquanto o estoque parado é um problema interno, a logística reversa é o ponto onde a operação encontra o cliente final de forma mais sensível. Com o aumento das compras online durante o período de festas e promoções de verão, o volume de trocas e devoluções tende a subir vertiginosamente nesta época.

Aqui no Logistiquês, sempre reforçamos que a logística não termina quando o pacote é entregue, e sim quando o cliente está satisfeito. Se o seu processo de retorno é burocrático, lento ou confuso, você não está apenas perdendo uma venda, mas destruindo a confiança do consumidor. Integrar o rastreio da devolução com o sistema de atendimento e garantir que o produto retorne ao estoque vendável o quanto antes é o que separa as empresas amadoras das que dominam o mercado, e uma reversa eficiente reduz o “custo do arrependimento” e pode fidelizar mais do que uma entrega rápida.

A bússola para o novo ciclo

Para navegar nesse início de ano sem se afogar em planilhas, a tecnologia precisa deixar de ser um acessório e passar a ser o motor da decisão. Não se trata apenas de ter um WMS ou um TMS robusto, mas de saber extrair desses sistemas a visibilidade necessária para o redirecionamento de carga. Se um produto que não vendeu no litoral após o feriado e, ao mesmo tempo, você tem uma demanda reprimida no interior, é a agilidade no transporte fracionado que permitirá esse remanejamento sem custos proibitivos. As decisões tomadas agora, baseadas em dados reais de consumo e não apenas em intuição, definem o ritmo de eficiência da malha logística para todo o primeiro semestre. É o momento de revisar rotas, renegociar contratos com transportadores e ajustar os níveis de estoque de segurança, garantindo que a operação esteja leve e pronta para reagir às oscilações do mercado.

O profissional que domina o cruzamento de dados de ocupação de armazém com o custo de frete retorno consegue apresentar soluções que poupam milhares de reais à companhia. Não basta saber operar o software; o diferencial está em interpretar o que o sistema diz sobre a eficiência da última milha ou o custo de oportunidade do estoque parado. A tecnologia serve para validar a intuição do profissional de chão de fábrica, e é essa maturidade técnica que constrói uma reputação sólida dentro de qualquer operador logístico ou embarcador.

O ano não começa agora, ele se ajusta a partir de agora

O mantra de que o Brasil só começa depois do carnaval é uma meia verdade perigosa para quem vive de operação. Na logística, o ano é um fluxo contínuo onde os picos servem de aprendizado para os períodos de ajuste, e o foco agora não deve ser apenas “limpar a casa”, mas sim estruturar processos que suportem a volatilidade. Quem consegue gerir bem o inventário residual e transformar a logística reversa em um diferencial competitivo já larga com uma vantagem enorme. O verdadeiro profissional de logística é aquele que, em meio ao silêncio do pós-festa, consegue ouvir o que os dados estão dizendo sobre o futuro do negócio.

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