Quando uma rota é planejada, distância e tempo normalmente estão entre os primeiros critérios analisados. Se dois veículos precisam fazer a mesma entrega e uma alternativa economiza alguns quilômetros e minutos de viagem, a escolha parece óbvia. O problema é que existe uma variável que nem sempre aparece no mapa: o risco.
A rota que o mapa não conhece
O roubo de cargas continua sendo um problema relevante para a logística brasileira, mesmo com a redução registrada nos últimos anos. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil teve 10.189 ocorrências de roubo de carga em 2024, uma queda de 13,61% em relação a 2023, mas ainda equivalente a uma média de aproximadamente 28 ocorrências por dia. O dado também mostra uma concentração importante: 87,42% dos casos aconteceram na região sudeste.
Para quem trabalha com transporte, isso ajuda a colocar o problema em outra perspectiva. Uma rota não é apenas uma sequência de ruas ligando origem e destino; dependendo da região, do horário, do tipo de mercadoria e das características da operação, o caminho escolhido pode aumentar ou reduzir significativamente a exposição do veículo.
Um sistema de roteirização consegue trabalhar muito bem com distância, tempo estimado, trânsito, restrições de circulação e capacidade dos veículos, mas essas informações não são suficientes para representar todo o risco de uma operação. É possível encontrar o caminho matematicamente mais eficiente e, ainda assim, escolher uma alternativa pouco interessante do ponto de vista da segurança.
É por isso que o planejamento precisa incorporar informações de gerenciamento de risco, conjunto de processos utilizado para identificar situações que podem comprometer a carga e definir medidas para reduzir essa exposição. Na prática, isso pode significar considerar regiões com maior incidência de ocorrências, horários mais sensíveis, pontos de parada, tipo de mercadoria e até características específicas do veículo ou da operação.
A diferença parece pequena, mas muda a pergunta feita ao sistema. Em vez de buscar apenas o menor caminho, a operação passa a procurar uma alternativa que equilibre distância, tempo, custo e segurança.
Tecnologia ajuda, mas não dirige sozinha
Nesse cenário, tecnologia pode atuar em diferentes momentos da operação. O rastreamento por GPS, por exemplo, permite acompanhar a posição do veículo e identificar desvios ou comportamentos fora do planejado. Geocercas podem gerar alertas quando um caminhão entra ou sai de determinadas áreas, enquanto sensores e dispositivos embarcados podem monitorar situações como abertura de portas, desengate ou parada fora do padrão.
Também existem recursos de telemetria, que coletam informações sobre o comportamento do veículo, e plataformas de monitoramento capazes de cruzar esses dados com o planejamento da viagem. O objetivo não é simplesmente saber onde o caminhão está, mas identificar quando aquilo que está acontecendo começa a fugir do comportamento esperado.
É importante, porém, não transformar rastreamento em sinônimo de prevenção. Um GPS não impede um roubo por conta própria. Ele pode ajudar a detectar uma situação anormal, acionar protocolos de resposta e aumentar as possibilidades de recuperação do veículo ou da carga. Estudos sobre gerenciamento de risco no transporte também apontam a combinação entre rastreamento, monitoramento, procedimentos e treinamento como parte relevante da estratégia de mitigação.
Existe ainda uma camada menos evidente dessa discussão: quanto mais informação a empresa possui sobre suas operações, maior é a necessidade de proteger essas informações. Origem, destino, horário de saída, tipo de mercadoria, valor da carga e localização do veículo são dados que, quando expostos indevidamente, podem aumentar a vulnerabilidade da operação.
Por isso, tecnologias de segurança não deveriam ser analisadas isoladamente. Um rastreador pode fornecer uma localização precisa, mas essa informação precisa estar disponível para as pessoas certas; uma plataforma pode identificar um desvio, mas alguém precisa receber o alerta e saber o que fazer; uma rota pode evitar uma área de risco, mas o motorista precisa conhecer os procedimentos definidos para aquela viagem.
Nem sempre vale a pena economizar alguns quilômetros
Imagine duas rotas para uma entrega. Uma delas é 15 quilômetros mais curta, mas atravessa uma região considerada crítica em determinado horário. A outra exige alguns quilômetros adicionais, porém reduz a exposição e mantém o veículo em uma área mais adequada para aquela operação.
Se o planejamento considerar apenas combustível e tempo, a primeira alternativa provavelmente será vencedora. Quando o risco entra na equação, entretanto, aqueles quilômetros adicionais podem representar uma decisão operacional muito mais racional.
Isso não significa transformar toda região de risco em uma área proibida ou fazer todas as viagens pelo caminho mais longo. Uma medida desse tipo também gera custos e pode inviabilizar ganhos de produtividade. A questão é utilizar os dados disponíveis para entender quando determinado ganho de eficiência realmente compensa a exposição adicional.
A melhor rota é a que faz sentido para a operação
Nos últimos anos, a discussão sobre segurança logística deixou de depender exclusivamente de escolta, rastreamento ou bloqueadores. A evolução está justamente na combinação entre informações de risco, planejamento de rotas, monitoramento, inteligência operacional e resposta rápida. Até iniciativas regulatórias caminham nessa direção. Em 2026, a ANTT ampliou a rastreabilidade das operações por meio do novo modelo do CIOT, que registra informações como contratante, transportador, veículo, origem, destino e valor do frete, criando mais uma camada de controle sobre o transporte rodoviário de cargas.
No fim, a lógica é simples: a rota mais eficiente não é necessariamente aquela que percorre menos quilômetros, mas aquela que entrega o melhor equilíbrio entre produtividade, custo, nível de serviço e segurança. Em uma operação de transporte, alguns quilômetros a mais podem parecer desperdício no planejamento, mas depois de uma ocorrência, podem parecer exatamente o contrário.