Durante muito tempo, falar em entrega dentro de comunidades foi tratado como algo fora do padrão operacional, quase sempre associado a exceções, riscos e dificuldades. Não porque o consumo fosse menor nesses territórios, mas porque a lógica tradicional da logística nunca foi desenhada para lidar com ruas sem placa, numeração irregular, vielas estreitas e referências que não cabem nos campos obrigatórios de um cadastro digital, criando um distanciamento claro entre o que o sistema entende como endereço e o que de fato orienta o deslocamento de quem vive ali todos os dias.
Essa desconexão histórica fez com que muitas empresas evitassem essas áreas, priorizando regiões formalmente endereçadas. No entanto, o crescimento acelerado do e-commerce, especialmente a partir da década passada e com um salto evidente após 2020, tornou esse comportamento insustentável, já que milhões de consumidores passaram a depender das entregas para acessar produtos básicos, tecnologia, medicamentos e alimentos, obrigando a logística a abandonar a postura defensiva e aprender, na prática, a operar em ambientes complexos e altamente dinâmicos. Por isso, a logística nas comunidades não segue o manual tradicional: ela criou o seu próprio manual.
Quando o endereço não segue a lógica formal
O primeiro grande obstáculo surge ainda antes da mercadoria sair do centro de distribuição, no momento do cadastro do pedido, quando informações como rua, número e CEP não existem ou não seguem qualquer padrão reconhecido oficialmente. Em seu lugar, entram descrições baseadas em referências locais, pontos conhecidos, cores de fachadas, campos improvisados e comércios tradicionais (algo como “rua da padaria, depois da escadaria azul, casa com portão verde, ao lado do mercadinho do João”), elementos que fazem total sentido para o morador, mas que desafiam completamente sistemas automatizados de validação e roteirização.
Para lidar com esse cenário, muitas empresas precisaram flexibilizar processos internos, permitindo descrições mais longas, complementos detalhados e instruções livres. O sucesso da entrega passou a depender menos da padronização do dado e mais da interpretação humana na última etapa, o que exigiu treinamentos específicos para equipes de atendimento, motoristas e parceiros locais, além de ajustes em indicadores de qualidade, já que uma entrega bem-sucedida nesses territórios nem sempre segue o caminho ideal desenhado no sistema.
Pontos de entrega externos e locais de retirada
Quando a entrada direta na comunidade não é possível ou recomendada, seja por limitações de acesso, restrições à circulação de veículos maiores ou questões operacionais mais sensíveis, a logística recorre a um modelo amplamente utilizado ao longo dos anos, a entrega em pontos externos localizados em vias principais e regiões reconhecidas tanto pelos operadores quanto pelos moradores.
Esses pontos funcionam como áreas de transição, onde a carga é recebida, registrada e armazenada temporariamente para posterior retirada. Comércios locais, associações de moradores e estruturas montadas especificamente para esse fim passam a integrar o fluxo da entrega, criando previsibilidade, reduzindo tentativas frustradas e garantindo que o pedido chegue ao destino final, ainda que não diretamente à porta da residência.
Um dos elementos mais relevantes nesse tipo de operação é o papel dos intermediários locais, pessoas que conhecem profundamente cada viela, cada limite invisível entre áreas, os caminhos mais rápidos e os horários mais adequados para circulação. Esse conhecimento, construído ao longo dos anos, transforma-se em um ativo logístico difícil de replicar por meios tradicionais.
Esses agentes assumem a responsabilidade pela última etapa da entrega, recebendo os volumes, organizando a distribuição interna e realizando o deslocamento final por meios compatíveis com o território, como motos, bicicletas ou deslocamentos a pé. O resultado é uma operação mais ágil, com menor índice de erros e maior taxa de sucesso, além do fortalecimento da relação de confiança com os destinatários, algo que nenhum sistema de rastreamento consegue substituir por completo.
Caso de sucesso: Complexo da Maré
Nos últimos anos, um avanço estrutural começou a alterar de forma significativa o cenário das entregas em comunidades, com iniciativas voltadas ao mapeamento oficial desses territórios e à criação de CEPs específicos para áreas internas, permitindo que regiões historicamente invisíveis passassem a existir formalmente nos sistemas de endereçamento.
O Complexo da Maré, uma das maiores áreas de favela do Rio de Janeiro, tornou-se um dos exemplos mais citados desse processo, com vielas e áreas internas recebendo identificação própria. Isso impactou diretamente a logística, já que plataformas de e-commerce, sistemas de gestão e serviços diversos passaram a reconhecer esses endereços, reduzindo falhas, retrabalho e exclusão, além de ampliar o acesso da população a serviços essenciais.
Durante décadas, muitas partes do Complexo da Maré ficaram fora do sistema oficial de endereçamento postal ou tinham endereços que não eram reconhecidos nos bancos de dados dos Correios, e isso criava uma barreira real para entregas porta a porta, acesso a serviços formais e até para que moradores pudessem usar serviços que exigem comprovação de endereço.
Em 2025, uma mudança histórica começou a ser registrada: pela primeira vez, todas as favelas e comunidades urbanas do país passaram a ter um CEP oficial no sistema postal. Essa etapa inicial faz parte do programa CEP para Todos, uma política pública coordenada pela Secretaria Nacional de Periferias, pelo Ministério das Cidades e pelos Correios, que se apoia em estudos e dados do IBGE para identificar e registrar oficialmente esses territórios no mapa postal do país. Quando se fala em CEP próprio, existem alguns níveis:
- CEP geral da comunidade: cada favela ou território maior recebe ao menos um código que identifica toda a área dentro do sistema nacional dos Correios, ou seja, antes da implementação, muitas vezes o endereço constava apenas como “Maré, RJ” ou não constava de forma reconhecida. Com o CEP geral, qualquer sistema consegue validar a existência daquele destino e encaminhar uma encomenda ou carta para lá.
- CEPs por logradouro (ruas, becos, vielas): por meio de um mapeamento mais detalhado, cada rua, viela, travessa e beco passa a ter seu próprio CEP, respeitando a configuração real da comunidade tal como é vivida pelos moradores. Isso significa que o endereço deixa de ser um bloco único e passa a ser fragmentado com identificação específica.
Só para ter uma ideia do tamanho da mudança na Maré: 279 CEPs já foram gerados só em seu território, o que representa cerca de 19 mil pessoas diretamente afetadas por esse avanço. Antes, quando um sistema de entrega recebia um pedido com endereço na Maré, o CEP muitas vezes não existia ou era genérico demais, o que inviabilizava a validação automática do endereço, gerava erro no cadastro ou fazia o pedido cair para análise manual, o que atrasa e encarece a entrega. Com os CEPs por logradouro, agora o sistema consegue:
- Validar automaticamente o endereço nos bancos de dados postais e de e-commerce;
- Inserir informações de roteirização automática com menos necessidade de intervenção humana;
- Agilizar a identificação de destino no momento em que o pacote entra na cadeia logística;
- Reduzir falhas de tentativa de entrega por endereço “inexistente” ou erro cadastral.
Ou seja, o endereço que antes podia gerar um erro do tipo “CEP não encontrado” agora existe dentro da base oficial, facilitando que o pacote percorra todo o fluxo sem retrabalho ou bloqueio do sistema.
Um desafio antigo que ganhou urgência com o avanço do e-commerce
A dificuldade de entrega em comunidades não é um tema novo, mas o que mudou foi a escala do problema, que cresceu junto com o comércio eletrônico e se intensificou após 2020, quando o volume de pedidos destinados a essas regiões aumentou de forma significativa.
Grandes marketplaces passaram a registrar taxas elevadas de insucesso nessas entregas, o que forçou uma mudança de postura com a busca de parcerias com operadores locais, criação de hubs comunitários e modelos híbridos de distribuição, que passaram a fazer parte da estratégia, combinando a eficiência da operação formal com a execução final feita por quem conhece o território.
Outro ponto central dessas operações está relacionado aos meios de transporte utilizados, onde caminhões e vans de grande porte enfrentam limitações claras em ruas estreitas, ladeiras íngremes e acessos improvisados, abrindo espaço para modais menores, mais leves e melhor adaptados à realidade local. Com isso, motos e bicicletas ganharam protagonismo pela facilidade de circulação e rapidez na entrega interna, enquanto deslocamentos a pé seguem sendo comuns em áreas com escadarias e vielas fechadas. Essa combinação cria uma lógica operacional baseada em rotas curtas, maior frequência de entregas e contato direto com o destinatário, fatores que contribuem para o aumento da eficiência mesmo em ambientes complexos.
O que a logística tradicional ainda precisa aprender
As entregas em comunidades deixam claro que logística não é apenas sobre sistemas, mapas e padronizações: ela depende de leitura de contexto, flexibilidade e capacidade de adaptação, já que endereço, nesses territórios, é construído a partir de referências coletivas, relações sociais e conhecimento acumulado ao longo do tempo. Enquanto muitas operações insistem em modelos rígidos, essas experiências mostram que eficiência também nasce da escuta, da proximidade e da valorização do conhecimento local.
Entregar em comunidades não é uma exceção dentro da logística brasileira, mas uma realidade cotidiana que envolve milhões de pessoas e movimenta um volume expressivo de mercadorias. Atender esses territórios exige soluções que vão além do manual tradicional e reconhecem a diversidade dos contextos atendidos, e ignorar essa dinâmica significa abrir mão de consumidores, oportunidades e aprendizados relevantes.
Compreender como essas operações funcionam mostra que a eficiência nem sempre está em tornar o ambiente mais simples, mas em tornar a logística mais inteligente, humana e adaptável, porque no final, independentemente do CEP, do mapa ou do sistema, o objetivo continua sendo o mesmo, fazer a entrega acontecer.





