#168: Quando reduzir quilômetros aumenta os custos da operação

Percorrer menos distância parece, à primeira vista, uma decisão óbvia para economizar combustível, reduzir desgaste dos veículos e aumentar a produtividade. No entanto, a realidade operacional costuma ser mais complexa do que essa lógica aparentemente simples sugere.

Em muitos cenários, perseguir exclusivamente a menor quilometragem pode produzir exatamente o efeito contrário ao esperado: aumento de custos, queda no nível de serviço e maior pressão sobre a operação. Isso acontece porque a logística é um sistema composto por diversas variáveis que precisam ser equilibradas simultaneamente, e não apenas uma competição para descobrir o menor caminho entre dois pontos.

O menor caminho nem sempre é a melhor rota

Imagine uma empresa que realiza entregas em uma grande região metropolitana. Durante uma análise de otimização, identifica-se que seria possível reduzir 15% da quilometragem total agrupando clientes em rotas mais compactas geograficamente.

No papel, o resultado parece excelente. O problema começa quando essa nova configuração faz com que alguns veículos operem próximos de sua capacidade máxima durante todo o dia, onde qualquer atraso, trânsito inesperado ou dificuldade de descarga passa a gerar impactos em cascata e o que antes era uma operação mais flexível torna-se uma operação extremamente sensível a qualquer desvio do planejamento. Nesse cenário, a economia de combustível pode acabar sendo menor do que os custos gerados por atrasos, horas extras, reentregas e insatisfação dos clientes.

Uma das armadilhas mais comuns na gestão logística é analisar apenas aquilo que pode ser visualizado em um mapa. Quilômetros, distâncias e tempos de deslocamento são importantes, mas representam apenas uma parte da equação. Uma rota mais curta pode exigir mais tempo de permanência em clientes com processos lentos de recebimento, concentrar entregas em regiões com grande dificuldade de estacionamento ou aumentar o tempo de deslocamento em centros urbanos congestionados, o que pode até mesmo exigir veículos adicionais por conta das restrições de capacidade.

O resultado é que a distância diminui, mas o tempo total da operação aumenta, e na logística tempo também custa dinheiro, pois motoristas, ajudantes, veículos e estruturas operacionais permanecem mobilizados durante toda a jornada, independentemente da quantidade de quilômetros percorridos.

Outro fenômeno bastante comum ocorre quando a busca pela menor distância acaba fragmentando excessivamente as rotas (já falamos por aqui sobre a ilusão “rotas que não se cruzam no mapa são melhores”). Em vez de um veículo percorrer uma região maior com boa ocupação, a operação passa a utilizar dois ou três veículos para cobrir áreas menores. Individualmente, cada rota apresenta uma quilometragem reduzida, mas o custo total da frota aumenta. A conta é simples: cada veículo adicional representa custos fixos relacionados a motorista, manutenção, documentação, seguros, depreciação e gestão operacional. Em muitos casos, esses custos superam com facilidade a economia obtida pela redução de alguns quilômetros.

O desafio de equilibrar produtividade e serviço

Existe ainda uma variável que muitas vezes recebe menos atenção do que deveria: o nível de serviço.

Uma operação pode reduzir quilômetros concentrando entregas em determinadas regiões e diminuindo a frequência de atendimento. Do ponto de vista dos custos de transporte, a decisão pode parecer positiva. Entretanto, o cliente passa a receber pedidos com menos flexibilidade, maiores janelas de entrega ou menor frequência de abastecimento. Dependendo do segmento, isso pode gerar rupturas, perda de vendas e redução da satisfação.

Nesse contexto, a economia logística obtida em uma ponta acaba produzindo prejuízos comerciais na outra, e é justamente por isso que empresas mais maduras procuram analisar a cadeia como um todo, em vez de otimizar apenas um indicador isolado.

Os sistemas modernos de planejamento de rotas são um bom exemplo dessa evolução. Embora a distância percorrida continue sendo um fator importante, os algoritmos atuais costumam considerar dezenas de restrições simultaneamente: capacidade dos veículos, horários de atendimento, jornadas de trabalho, tempos de descarga, prioridades comerciais e metas de serviço entram na mesma equação. Em muitos casos, o sistema identifica que uma rota ligeiramente maior produz um resultado operacional melhor do que a alternativa com menor quilometragem.

Essa lógica está diretamente relacionada a problemas matemáticos complexos, como o famoso Problema do Caixeiro-Viajante, utilizado para estudar formas eficientes de visitar diversos pontos. Na prática, porém, as operações reais possuem tantas variáveis adicionais que encontrar a menor distância raramente significa encontrar a melhor solução.

O indicador certo é o custo total

Talvez a principal lição seja que quilômetros não devem ser tratados como objetivo final, mas como uma das variáveis de desempenho da operação. Uma redução de distância só faz sentido quando contribui para diminuir o custo total ou aumentar a eficiência geral do negócio; caso contrário, a empresa corre o risco de otimizar um indicador específico enquanto piora diversos outros.

Por isso, gestores experientes costumam olhar para métricas mais abrangentes, como custo por entrega, custo por pedido, ocupação dos veículos, produtividade da frota e nível de serviço ao cliente, pois esses indicadores ajudam a enxergar a operação de forma mais completa e evitam decisões baseadas apenas em um único número.

A busca por eficiência continuará sendo um dos pilares da logística, mas eficiência não significa necessariamente fazer o menor percurso possível. Em muitos casos, significa encontrar o melhor equilíbrio entre custo, produtividade, capacidade operacional e qualidade de atendimento, e nesse ponto a logística se diferencia de uma simples análise de mapas, onde o desafio não é apenas descobrir como percorrer menos quilômetros, mas entender quando vale a pena percorrê-los.

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