Embora o roubo de cargas continue sendo uma das maiores preocupações do setor e gere grandes prejuízos todos os anos, ele representa apenas uma parte dos riscos enfrentados pelas empresas. Enquanto os grandes assaltos ganham destaque nas notícias, uma série de golpes menos visíveis acontece diariamente dentro da cadeia logística. São ações que, muitas vezes, não envolvem violência, mas causam perdas financeiras, interrupções operacionais e danos à reputação de empresas que dependem de uma operação confiável.
O golpe pode acontecer em qualquer lugar…
Grande parte dos problemas começa antes mesmo de o caminhão iniciar uma viagem. Um dos golpes mais conhecidos é o da falsa transportadora, quando criminosos criam empresas aparentemente legítimas, utilizando documentos, sites e perfis digitais para conquistar a confiança de embarcadores. Após receber a carga, desaparecem, causando prejuízos que vão muito além do valor da mercadoria.
Situação semelhante ocorre com o falso motorista. Nesse caso, documentos adulterados, identidades clonadas ou cadastros utilizados de forma indevida permitem que criminosos assumam a identidade de prestadores legítimos e sejam aprovados em processos de liberação de carga.
Outro golpe que ganhou espaço envolve as falsas centrais de agendamento de carga e descarga. Aproveitando a rotina de reservas de horários em centros de distribuição, criminosos criam canais falsos de atendimento para cobrar taxas indevidas ou coletar informações sobre cargas, veículos e rotas. Além do prejuízo financeiro imediato, esses dados podem ser utilizados para outras ações criminosas.
A logística conectada trouxe velocidade para as operações, mas também criou novos caminhos para ataques digitais. O phishing, técnica utilizada para enganar pessoas por meio de mensagens, e-mails ou páginas falsas, tornou-se uma das formas mais comuns de capturar informações ou induzir pagamentos indevidos. A própria dinâmica logística favorece esse tipo de golpe: com milhares de pedidos, entregas, transportes e pagamentos acontecendo simultaneamente, mensagens falsas podem parecer extremamente convincentes.
Em 2025, por exemplo, ganhou repercussão nacional uma série de golpes utilizando indevidamente o nome da Loggi, onde criminosos enviavam mensagens pelo WhatsApp informando supostos problemas em entregas e solicitavam pagamentos para liberar encomendas. O caso chamou atenção justamente porque as mensagens utilizavam informações relacionadas às entregas, aumentando a aparência de legitimidade.
O Magazine Luiza também já enfrentou casos similares e hoje mantém uma página oficial de orientação aos consumidores sobre golpes envolvendo sua marca, como links falsos, boletos adulterados e promoções inexistentes. O cenário demonstra como a confiança construída por empresas reconhecidas passou a ser explorada por criminosos para dar credibilidade às fraudes.
…até mesmo dentro da própria operação
Nem todos os riscos vêm de fora, e algumas das perdas mais difíceis de identificar acontecem dentro da própria cadeia operacional.
O furto interno pode ocorrer durante armazenagem, separação, carregamento ou transporte. Individualmente, pequenas perdas podem parecer pouco relevantes, mas, acumuladas ao longo do tempo, representam impactos significativos para as empresas. Um cenário ainda mais complexo é o desvio de carga por conluio, quando diferentes participantes da operação atuam juntos para fraudar processos. A participação de colaboradores internos, motoristas ou terceiros torna a identificação mais difícil e exige controles mais estruturados.
Por isso, auditorias, segregação de funções, acompanhamento de indicadores e uma cultura que incentive a comunicação de irregularidades são tão importantes quanto as ferramentas tecnológicas utilizadas no monitoramento.
Até o comprovante de entrega virou alvo: o POD (Proof of Delivery), comprovante utilizado para confirmar a realização de uma entrega, tornou-se um documento essencial para a operação e, justamente por isso, passou a ser alvo de manipulações, como assinaturas falsas, imagens alteradas, registros realizados fora do local correto ou confirmações feitas antes da entrega são alguns exemplos de problemas enfrentados por empresas que dependem desse controle.
Mais do que um documento operacional, o comprovante de entrega representa a rastreabilidade da operação, e quando sua confiabilidade é comprometida, surgem disputas comerciais, dificuldades de auditoria e problemas para comprovar o que realmente aconteceu. Recursos como geolocalização, registro automático de horário e validações digitais ajudam a tornar essas informações mais seguras, mas precisam estar integrados a processos bem definidos.
Tecnologia, processos e governança
Não existe uma ferramenta capaz de eliminar todos esses riscos isoladamente. Por isso, a segurança logística depende de diferentes camadas de proteção trabalhando juntas. A tecnologia tem papel fundamental, com sistemas de gestão, rastreamento, validação documental e monitoramento em tempo real ajudando a identificar comportamentos fora do padrão.
Porém, ferramentas eficientes não compensam processos frágeis. A homologação de transportadoras, a atualização cadastral de prestadores, a conferência de alterações críticas e a definição clara de responsabilidades são elementos essenciais para reduzir oportunidades de fraude. Nesse contexto, os contratos também possuem um papel estratégico, pois eles devem estabelecer critérios de segurança, responsabilidades, requisitos mínimos de operação e procedimentos em caso de incidentes. Um contrato bem estruturado fortalece a governança e reduz ambiguidades quando um problema acontece.
Por fim, as pessoas continuam sendo um dos principais elementos de proteção. Colaboradores preparados conseguem identificar comportamentos suspeitos, questionar solicitações incomuns e interromper problemas antes que eles causem prejuízos.
Segurança logística vai muito além da escolta
Os riscos atuais mostram que proteger uma operação logística não significa apenas impedir que uma carga seja roubada durante o transporte. Muitas vezes, o prejuízo começa muito antes, em um cadastro não validado, uma alteração bancária sem conferência, um documento manipulado ou uma parceria estabelecida sem critérios adequados.
Empresas que tratam segurança apenas como rastreamento e monitoramento de veículos protegem somente uma parte da cadeia. A verdadeira maturidade está em construir uma operação onde tecnologia, processos, contratos e pessoas trabalham juntos para prevenir problemas.