#173: A IA não vai substituir o gestor, mas vai mudar o que ele faz

Durante décadas, o trabalho de qualquer gestor na logística (líder de equipe, supervisor, coordenador, gerente, etc) esteve diretamente ligado à tomada de decisões baseada na experiência. Era comum passar boa parte do dia analisando planilhas, acompanhando indicadores, conferindo ocorrências, respondendo dúvidas da operação e tentando identificar problemas antes que eles se tornassem prejuízos. Embora muitas dessas atividades continuem existindo, a inteligência artificial está alterando profundamente a forma como elas são executadas.

O debate sobre IA normalmente gira em torno da substituição de profissionais. Na logística, porém, esse cenário parece pouco provável para cargos de gestão. O que está acontecendo é algo diferente: diversas atividades operacionais e analíticas estão sendo automatizadas, enquanto o papel do gestor passa a exigir competências que nenhuma inteligência artificial consegue exercer sozinha.

A mudança não está em quem toma a decisão, mas em como essa decisão será tomada.

O gestor sempre lidou com informações; agora, ele terá informações demais

Até pouco tempo atrás, um dos maiores desafios da logística era a falta de dados. Muitas empresas não possuíam rastreamento em tempo real, indicadores confiáveis ou sistemas integrados. Decisões eram tomadas com base em percepções, telefonemas e planilhas atualizadas manualmente.

Hoje, o cenário é praticamente o oposto: sistemas de gestão de transporte (TMS), roteirizadores, ERPs, plataformas de monitoramento e aplicativos de campo produzem milhares de informações diariamente. O problema deixou de ser obter dados e passou a ser conseguir interpretá-los.

É justamente nesse ponto que a inteligência artificial ganha espaço. Em poucos segundos, ela consegue identificar padrões de atraso, prever riscos de ruptura, sugerir alterações em rotas, detectar comportamentos anormais, resumir centenas de ocorrências e até recomendar ações com base no histórico da operação. Isso reduz drasticamente o tempo gasto com análises repetitivas, mas alguém ainda precisa decidir se aquela recomendação faz sentido para o contexto do negócio.

Menos tempo procurando problemas, mais tempo resolvendo-os

Imagine um gestor responsável por uma frota com 250 veículos. Sem IA, parte significativa do dia pode ser consumida respondendo perguntas como:

  • Quais veículos estão atrasados?
  • Quais motoristas estão abaixo da produtividade esperada?
  • Onde houve maior tempo de espera?
  • Quais entregas apresentam risco de não cumprimento do SLA?
  • Quais indicadores pioraram em relação à semana passada?

Com inteligência artificial, essas respostas chegam praticamente prontas.

Mais do que responder perguntas, a IA pode apontar situações que o gestor ainda nem percebeu, olha só: em vez de abrir dezenas de relatórios para descobrir um problema, o gestor recebe um resumo indicando que determinada região apresenta aumento recorrente no tempo de descarga, que um cliente passou a gerar filas acima da média ou que determinada rota apresenta risco elevado devido ao trânsito previsto para o período. O trabalho deixa de ser encontrar a informação e passa a ser agir sobre ela.

A experiência continua sendo insubstituível

Uma recomendação gerada por IA não leva em consideração fatores que muitas vezes só quem vive a operação conhece, pois ela pode sugerir trocar um motorista de rota porque os indicadores mostram maior produtividade, mas talvez aquele profissional conheça um cliente estratégico, tenha excelente relacionamento com a equipe de recebimento ou seja o único habilitado para operar determinado equipamento.

Da mesma forma, um algoritmo pode indicar uma transportadora mais barata, mas dificilmente compreenderá que essa empresa está enfrentando dificuldades financeiras, teve problemas recentes de qualidade ou possui um histórico ruim em períodos de alta demanda.

A inteligência artificial enxerga padrões e o gestor entende contexto, e contexto continua sendo decisivo na logística. Quanto melhores forem as perguntas feitas pelo gestor, melhores tendem a ser as respostas produzidas pela inteligência artificial.

Isso significa que competências como pensamento crítico, visão sistêmica e capacidade analítica passam a ter ainda mais valor, porque não basta perguntar: “Como reduzir custos?”; um gestor experiente provavelmente fará perguntas muito mais específicas, como: “Quais clientes apresentam maior custo por entrega devido ao tempo de espera?”, ou “Quais rotas apresentam baixa ocupação dos veículos apesar de possuírem alta frequência semanal?” Nesse sentido, a IA acelera as respostas, mas continua dependendo da inteligência humana para direcionar a análise.

Gestão de pessoas se torna ainda mais importante

Enquanto parte das atividades técnicas tende a ser automatizada, a liderança passa a ocupar uma parcela ainda maior do trabalho do gestor:

  • Resolver conflitos
  • Desenvolver equipes
  • Conduzir mudanças
  • Negociar prioridades
  • Motivar pessoas
  • Construir uma cultura orientada por dados

Nenhuma dessas atividades desaparece com a inteligência artificial. Na verdade, elas ganham ainda mais importância. À medida que decisões operacionais passam a ser apoiadas por tecnologia, o maior desafio deixa de ser o sistema e passa a ser a adaptação das pessoas.

Implementar uma nova ferramenta é relativamente simples, mas fazer uma equipe confiar nela costuma ser muito mais difícil.

O gestor deixa de ser um operador e passa a ser um estrategista, e talvez essa seja a maior transformação, já que durante muito tempo, muitos gestores foram promovidos justamente por conhecerem profundamente a operação: sabiam montar rotas, negociar fretes, resolver problemas de carregamento e apagar incêndios diariamente.

Essas competências continuam relevantes, aas deixam de ser suficientes por si só. O gestor do futuro precisará dedicar mais tempo à melhoria contínua, análise de cenários, inovação, relacionamento com clientes, gestão de riscos e desenvolvimento da equipe, e enquanto a IA executa tarefas repetitivas em segundos, sobra espaço para aquilo que realmente gera vantagem competitiva: pensar.

O futuro pertence a quem souber trabalhar junto com a IA

Existe uma frase bastante repetida no mercado que diz que “a IA não vai substituir pessoas, mas pessoas que usam IA substituirão quem não usa”.

Embora simplifique uma realidade muito mais complexa, ela contém um fundo de verdade. Na logística, dificilmente veremos gestores sendo substituídos simplesmente porque surgiu uma nova tecnologia.

O cenário mais provável é outro: gestores que aprenderem a utilizar inteligência artificial para tomar decisões mais rápidas, fundamentadas e estratégicas terão uma vantagem significativa sobre aqueles que insistirem em fazer tudo da mesma maneira de sempre.

A inteligência artificial não elimina a necessidade de liderança, experiência ou visão de negócio; ela elimina parte do trabalho mecânico que ocupava boa parte da rotina, e no fim das contas, o gestor continuará sendo responsável pelas decisões mais importantes. A diferença é que deixará de gastar energia procurando respostas e poderá concentrar seus esforços naquilo que realmente faz diferença para a operação: decidir melhor, desenvolver pessoas e conduzir a logística em um ambiente cada vez mais complexo e orientado por dados.

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